Burro velho mas bem-falante
Eu fiquei gaga!
Depois da minha mãe ter-me enchido de orgulho lésbico, finalmente também o meu pai. Na cavaqueira usual pós-janta, e a propósito de um comentário que fiz sobre uma notícia do dia, o meu pai fez uma declaração inesperada que me deixou zonza, a mediar sensações de grande surpresa e grande alegria: de pai de lésbica resignado e espectador, passara a fiel defensor da causa/luta homossexual! Mas ferrenho mesmo, pelo que percebi!
Com o meu pai, o trabalho de educação pela não discriminação foi sempre mais árduo. Ele teimava em levantar resistências que eu temia apelidar frontalmente de "preconceito", para evitar que ele se ferísse com a minha desilusão e se retraísse mais. Assim, sempre achou que fazia o máximo para entender e lidar com a homossexualidade - e se não a entendia era porque não fazia sentido - o que me levou a recuar e aceitar a sua limitação como a etapa mais satisfatória possível na educação homo-tolerante (será melhor dizer pró-homossexual, ou "friendly"!?) que podia alcançar com ele. Eis se não quando... ele se manifesta totalmente solidário com as angústias com que os homossexuais se confrontam no plano do direito, da representação em sociedade e das emoções privadas. Admitiu até ter estado sob o preconceito corrente que o impediu de ver a problemática objectivamente.
Foi soberbo! Um salto derradeiro que deu sozinho, a ruminar ideias à mesa de um café, onde um jornal noticiava que a JS decidira novamente relegar a reivindicação do casamento homossexual para outra agenda política. Agora só falta a problemática trans... Vou fazer-lhe a introdução à matéria o quanto antes!
E disto eu também retirei lições. Percebi que educar eficazmente passa por saber encontrar os termos e temas com que melhor alcançar e colocar em funcionamento o motor de entendimento dos sujeitos. No caso do meu pai, foi a política... e já antes eu havia tentado esse caminho. Ao que parece, só agora ele alcançou outro dos requisitos essenciais para evoluir: vontade.
