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Wednesday, January 31, 2007

Camarões abrandam na homofobia em África

“Data: 30 de Janeiro de 2007-01-31

A IGLHRC e a Alternativas-Camarões anunciam com satisfação a libertação de Nicholas Njocky e Patrick Yousseu, dois homens gay que haviam sido detidos na nação ocidental-africana dos Camarões por um ano, ao abrigo do Artigo 347 do código penal camaronês, que torna ilegal o sexo entre duas pessoas do mesmo sexo.

A IGLHRC permanece preocupada com a detenção prolongada de Alexandre Demanou, detido sem acusação ou julgamento desde 2002.”

Notícia intergralmente traduzida; original aqui.

Como entendo a intolerância em África para com os homossexuais?

Pensei um pouco sobre este assunto depois de saber das notícias que deram origem aos dois últimos post que publiquei (este e este), e cheguei a uma resposta que me pareceu mais ou menos plausível. Penso que o que está na base da homofobia, e outras formas de discriminação em África seja o confronto ideológico de dois paradigmas religiosos – afinal a mesma razão de sempre, em todo o mundo, por muito laicas que outras regiões se apelidem.

O islamismo é a religião com maior tradição em África, já que precedeu a evangelização cristã. O nomadismo ancestral, adjunto à confluência de geografias, e a partilha de cultos e rituais entre povos africanos, porporcionou que o islamismo, emergente e vigoroso, se instalásse como paradigma dominante. No entanto, com o advento (bélico) da colonização, o Cristianismo tornou-se a religião oficial da maior parte dos ‘novos estados’, impondo filosofias quase sempre antagónicas relativamente às crenças das populações autóctones, fossem aquelas o islamismo, ou outros cultos místico-naturalistas.

Naturalmente, um e outro dos principais dogmas religiosos pretendem ser o mais influente sobre os comportamentos das populações, tendo-se originado uma ‘mestiçagem’ institucional insólita e dificil de descortinar, porque, sem quererem ceder nem dialogar, eles sustentam afinal os estados, ainda que em estabilidade periclitante: a justiça ‘oficiosa’ (popular) decalca quase sempre as regras islâmicas, e a justiça oficial (de estado) verga-se aos rigores da cristandade... donde decorrem tais sintomas como: populações a perpétuar a ablação do clitóris em meninas de 7 a 12 anos, e políticas de estado que não se preocupam em proteger a integridade das mulheres; populações que matam homossexuais e leis nacionais que ainda por cima os perseguem.

Na Europa e noutros países ‘desenvolvidos’, explica-se a homofobia com motivos socio-históricos, cultural-normativos, pois que nas culturas ‘modernas’ prima o laicismo (e a religião já não serve de desculpa... Pois!). Os estados africanos ainda não se podem laicizar, já que a Igreja ainda presta ali muitas formas de assistência às necessidades diversas que os estados sozinhos não conseguem suprir. Assim, a homofobia não encontra justificações socio-históricas/cultural-normativas que correspondam a uma laicização – processo longo de reformatação social – dos estados... As justificações são declaradamente religiosas! Logo, é sim e só a disputa pela fé a principal ignição do preconceito homofóbico em África.